terça-feira, 7 de outubro de 2008

A dor e o dono da dor

Durante toda uma existência, subsistia-lhe perversamente o mesmo sofrimento. Eram dores dilacerantes, que rasgavam-lhe a carne tal qual o estuprador à sua vítima corrompe o ventre.


As chagas doíam-lhe profundamente. Impediam-no de realizar feitos atléticos, de praticar atividades intensas, demasiadamente caras à sua saúde frágil. Por quase tudo o que não podia realizar, como que para apaziguar sua própria incompetência, praguejava inutilmente, com certo desdém, um sem fim de impropérios contra o próprio corpo. Corpo hospedeiro de uma infinidade de moléstias; corpo inóspito para um coração arredio.


Merecidamente o nomearam com o pseudônimo de “profundissimamente hipocondríaco”. Não o era, mas a melancolia caía-lhe bem. De fato, exagerava aqueles sentidos. Expurgava tão intensamente aquela angústia que o pretenso temor de que lhe sobreviesse uma possível sensação de dor, já lhe era bastante dolorido.


Não conheceu o amor. Acreditava que as tais dores não o permitiam amar e travestia a mortalha do penitente celibatário. As aflições lhe eram mais intensas que qualquer paixão, mais ardentes que qualquer meretriz, mais puras e deleitáveis que qualquer donzela. O bastardo tinha uma alma tão podre que nenhuma luz vermelha, em pleno funcionamento, o aceitaria de bom grado.


Tantas vidas passam pelo mundo e ele acabou passando despercebido pela vida. Vida descartável, voltada para uma pesarosa auto-flagelação da qual se utilizava para rogar pela piedade alheia, carente de afeto que sempre foi.


Por fim, resolveu consultar um médico. O diagnóstico: unha encravada.


P.S.: Baseado numa vida vivida.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

In Memoriam

Vejo um tom vermelho amargo, feio e fétido. Não mais pulsante, nem mais dançante em veias alheias. Resultado de um instinto desagradável, um prazer doentio, gratificante... saboroso... delicioso... Se soubesse descrever o dramático monólogo, teria emudecido e transcrito um único gesto, o último ato.

O sangue escorre em minhas mãos suadas e calejadas, silenciosas testemunhas. Depois de haver imaculado meus entes mais queridos, o vejo agora tão puro e casto... O riso sobressalta-se em meu semblante. Incontrolável e inexplicável, como uma droga recém experimentada, viciante, vingativa. Ah, que orgasmo inatingível! Seria trágico, não fosse deveras cômico.

Mas não demore a ir-se, minha cara! Se o adeus demora a dor se expande, o coração não suporta! Não, meu frágil coração não foi feito para despedidas...

Sim... Uma morte sem medo, sem último grito de dor, sem testamento nem ridícula carta de despedida. Sem amigos que lhe velem o frágil corpo indefeso, sem amores que lhe derramem pedidos por um beijo final. Sem sequer vermes que lhe roam as partes íntimas! Definitivamente, o merecido para o supra-sumo da insignificância. Quisera eu tamanha imponência em meu penoso fim.

Arrependimento? Não. Detestável, seria a palavra que a definiria melhor.

Percebo por fim meu próprio sangue misturado aos demais. Poderia até brincar de mal-me-quer, enumerando meus familiares naquelas gotas inertes...

Apago da mente todas as más recordações: ingratas memórias pós-morte são indesejadas, dispensáveis. Dos mortos só nos resta guardar sempre as melhores lembranças, seja pelo que fizeram, poderiam ter feito, ou que apenas inventamos para dar-lhes alguma glória insípida, satisfazer-lhes a alma carente de utilidade.

Guardo então a lembrança de seu corpo contorcido e condoído pela dor. Minha imoralidade não me permite despir a consciência das dores morais, tão banais que são.

Adeus, enfim. Adeus, MALDITA MORIÇOCA.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Algum título imbecil sobre uma mídia idem

Reaproveitamentos de trabalhos são exaustivamente gratificantes, do "ponto de vista" de que não apenas um #$!@# de um professor irá ler o que você desperdiçou tempo pra escrever.

***

Segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu (nessa parte finjo que já o li), a mídia, os jornalistas ou a imprensa, como um todo, se permitem influenciar pela busca incessante pelo extraordinário, ou seja, fatos de repercussão nacional e internacional e dos quais acaba tornando-se subserviente.

Devido a essa busca pelo atípico, o que da mídia captamos é meramente e diariamente o ordinário, garantido pela repetição exaustiva das mesmas notícias "extraordinárias", "bombásticas" (com B) ou "catastróficas".

Embora a invasão de Isabelas, Champinhas, Von Histofens, PMs capacitados a matar inocentes e, mais recentemente, uma onda de bebês saltando de janelas; embora tal seja praticamente impossível de se evitar ao perpassar os órgãos de comunicação - é notícia vendável -, devemos à imprensa não apenas a informação que esta transmite, como também nossa alienação criminalística: o "culpado" acaba sendo o antagonista da novelinha que a mesma mídia nos apresenta.

É de sensacionalismo e denuncismo barato que vive nossa imprensa, a velha política do pão e circo que estamos adaptando.

sábado, 6 de setembro de 2008

?

Tava passeando aqui e achei uns versos de 2004 (16 anos?), um pirralho meio 'metido' a 'poeteiro'.
Publicado só pra deixar guardado pra posteridade.

enviado: 2 de dezembro de 2004 18:40

De eu pra mim.

Estou farto da tua caretice, da tua cara triste.
Farto do fato do teu ato ter rimado.
Dessa lucidez alucinatória que insiste
a carregar o fardo do teu desacato.

Tua antipatia banal
Tua empatia imoral
Tua mente podre
Tua rima medíocre.

Engana-te coração se pensas ainda me iludir.
Das armadilhas escapei
de estilhaços ainda estou marcado.

Amor à primeira vista
ou mesmo eterno não existe,
pois os olhos não amam, os corpos sim.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Ser Corno ou Não Ser

Ontem era apenas antes de hoje, apenas mais um dia comum numa vida comum. Ele acordou, comeu, bebeu e dormiu como de costume nos 89 anos anteriores. Não fez amor, como de costume nos incontáveis anos anteriores.

A infeliz chegou e disse simplesmente “Quero separar-me de ti, velho”.

Respondeu apenas que não estava muito pra piadas e pediu logo o jantar. Não sendo atendido, abateu-se em desespero: “Mas que é isto, mulher, de desacostumarmo-nos assim tão repentinamente após tão longo convívio?”.

“É que você não dá no couro”, respondeu a amada.

Sem desvendar o significado da expressão, resolveu-se por não ser taxado de ignorante. “É o meu problema de gases?”, perguntou ainda, vacilante.

“Não, velhinho. O problema é que você não escova o peba. É a pipa que não sobe mais, a macaca que não leva tapa, a aranha que não apanha, a cobra que não pica... Sacou a parada?”.

Estranhou o linguajar da jovem senhora de 90 anos, com a qual convivia há 70 ininterruptos (e infindáveis) anos. Não ousou questioná-la. Nem sequer cogitava o significado da palavra “gíria” – e nem eu o sei.

Juntou os trapos e foi para um asilo, findar seus dias. Lá soube que sua digníssima ex-mulher trocou-o por um jovem e saudável cinqüentão, charmoso galanteador de quem já era amante há algum tempo. Virou motivo de chacota entre os amigos, os que ainda estavam em posse das faculdades mentais.

Quando descobriu os reais motivos que levaram à falência de seu matrimônio, sentiu-se aliviado e refletiu: “É melhor ser conhecido por corno do que por brocha”.


"Nós fomos feitos um pro outro
Ela é uma vaca eu sou um touro"
(Bois Don't Cry - Mamonas Assassinas)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Relevo Impróprio

A pequena e (não tão) pacata cidade de Campina Grande, Rainha da Borborema. De clima agradável, economia próspera e rica em eventos culturais, sofre também dos males que afligem grandes metrópoles: crescimento de favelas, da criminalidade, do tráfico e do tráfego.

Este último fator, ocasionado por um centro comercial demasiado condensado, desorganizado e controvertido, ultimamente, e com maior freqüência, vem vitimando amortecedores e pneus, órgãos vitais para o bom funcionamento de veículos automotivos, tudo culpa da proliferação exacerbada de uma forma de relevo bastante comum em cidades “entregues às baratas”, tipos incomuns conhecidos popularmente como “buracos”, ou vulgarmente denominados, no atual modelo, “crateras”.

Gerados inicialmente devido à explícita desproporção entre os fatores “verba-para-custeio” e “desvio-de-verba” (também chamado “bolsa-parlamentar”), os tais fenômenos ocorrem em asfalto mal cuidado ou mal construído. As autoridades explicam o fenômeno como uma necessidade pessoal de cada motorista poder externar seus mais profundos sentimentos no trânsito caótico do mundo moderno, aliviando seu stress ao proferir um breve e inofensivo “puta-que-o-pariu” a cada vez que perpassa um dos inusitados declives.

Porém, nada temam caros amigos, pelas conjecturas deste escrevente. É tempo de eleição e os homenzinhos de uniforme alaranjado já ressurgiram para nos defender, capinando o mato e pintando os canteiros. Se não concluírem suas obras em tempo, como costumeiramente ocorre nestes casos, homenzinhos de uniformes alaranjados ou esverdeados voltarão dentro em quatro anos para novamente resgatar a beleza de nossa cidadezinha.

“[...] O governante é sempre um homúnculo em pé sobre uma rolha de cortiça, com seu chapéu de Bonaparte, acreditando e fazendo acreditar que rege o maremoto a seu redor. Governar é manter essa crença.” (Otavio Frias Filho, em Tutankaton).

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Prévia Auto-Biografia Caricata de um Ilustre Desconhecido

Com duas faculdades, desempregado, alcoólatra e pai de família, finalmente descobriu-se com talento em algo: tornou-se mendigo profissional. Não sabia se pela sua cara de pobre (gostava de se dizer “pobre de feição”) ou por suas vestes maltrapilhas, mas os que lhe viam, de pronto concediam algumas moedas.

Lábia não a tinha. Ao menos não com a maestria dos professores, palestrantes, políticos, galanteadores e outros profissionais respeitáveis (ou pouco respeitáveis) por sua eloqüência. Contava-lhes aquilo que precisavam ouvir para ter vergonha de conviver no mesmo mundo em que aquela escória, onde aquele farrapo humano ousava sobreviver.

Seus temas iam desde doenças e desemprego a problemas familiares passíveis de receber algum crédito e alguns trocados. Perdeu o apego pela verdade – ou descobriu-a tão volúvel quanto o amor de uma mulher.

Fundou uma escola de mendicância. Em demonstração de altruísmo – e cobrando uma mensalidade básica – ensinou aos seus semelhantes o caminho da vitória, de como obter sucesso naquele mercado de trabalho tão concorrido, onde as esquinas transbordam profissionais pouco qualificados. Lecionou técnicas de persuasão, tragédias familiares, doenças atípicas, vestuário básico e até preveniu sobre a rotatividade do local de trabalho.

Escreveu um livro (sob o título “Se Nada Der Certo Viro Mendigo”) mesclando memórias e auto-ajuda empresarial, pois percebeu tratar-se da simples transferência para o papel da atividade oral que já exercia cotidianamente.

Era um predestinado. Ao menos, via-se assim ao decidir fundar uma igreja. Saiu do lado passivo, dos que imploravam por misericórdia, para o ativo, dos que concediam a salvação – e igualmente recebendo seus trocados. Da assim denominada “Congregação do Divino Desapego Material” ironicamente adquiriu um acervo de peças metálicas de alto valor pecuniário, das quais se serviu para entrar na política.

Com o rebanho que formou, elegeu-se vereador (e posteriormente deputado) sob o slogan de “pai dos pobres” – que a santa publicidade seja louvada.

Em defesa dos excluídos da sociedade capitalista, criou programas de assistência à classe sem-teto, como o “Viaduto Pró-Mendigo” e lutou ferozmente pela promulgação da “Lei do Trocado Mínimo”, segundo ele uma “tentativa de inclusão social visando à diminuição da concentração de renda” – e extraindo para si mais alguns “trocados”.

Findou seus dias em terras além-mar, nalguma ilha particular, e seu nome entrou para os anais (!) da história como um dos mais éticos políticos já existentes, sendo até hoje considerado um mártir, símbolo da luta contra a desigualdade social, exemplo de ser humano.

“Vivi, estudei, amei, e até cri / E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu”.

(Fragmento de "A Tabacaria", Álvaro de Campos (Fernando Pessoa))

quinta-feira, 10 de julho de 2008

"Tricolor só tem um"

"O Fluminense é o melhor time do mundo. E se me disserem que os fatos mostram o contrário, eu vos digo: pior para os fatos.", Nelson Rodrigues.
"Se o Fluminense jogasse no céu, eu morreria para vê-lo jogar", Jules Rimet.

Publicado em http://blogenfoques.blogspot.com/
, 3 de Julho de 2008

(Republicado aqui por falta de tempo e criatividade, excesso de farras e gastos)

*****

"...O resto é time de três cores". Nelson Rodrigues, tricolor ilustre.

Incompreensível ou não, mas minha necessidade de auto-flagelação me incita a descrever a magnífica vitória-derrotada que a pouco presenciei (ao vivo... pela tevê).

Uma final épica com um final trágico.
Nunca imaginei que um simples jogo me pudesse comover como a um animal irracional como nos momentos que compartilhei com os 11 indivíduos que corriam atrás de uma esfera sob o olhar atento dos 80 mil presentes e dos tantos ausentes.
Não sei que motivos me levam a torcer. Simplesmente torço, vibro, grito, canto - e bebo.

Uma partida que entrará para os anais (ou com outra morfologia menos sensata) da história futebolística. Uma vitória que teve o desprazer de amargurar uma derrota histórica. Um camisa 10 que consagrou-se emplacando 3 gols numa final e desperdiçou seu pênalti.

E se não fossem os 11 marmanjos que se prostituíram aceitando 4 bolas dentro, num único e ridículo tempo de jogo;
E se não fossem o primeiro gol no primeiro minuto do primeiro jogo e nos primeiros minutos do segundo jogo;
E se não fossem a altitude do primeiro jogo, o árbitro do segundo jogo e a falta de atitude nas penalidades;
E se aquele time não tivesse derrubado mitos, lendas e tabus e calado tanta Boca...
... A decepção teria sido menor ou maior?
Foi apenas mais uma decepção num esporte tão cheio de fatores extrínsecos.

No gran finale, Palermo, o famoso pelas 3 penalidades desperdiçadas num único jogo, deu seu toque de inspiração aos nossos craques.
Essa foi minha vergonha, misturada ao orgulho de ver caras que não conheço, nem nunca conhecerei, em lágrimas por uma equipe da qual tiveram orgulho de participar, numa demonstração de "amor à camisa" nunca antes visto por minha pessoa.
Num mundo cada vez mais apegado ao capital, provavelmente eles estavam chorando pela grana que iriam receber caso vencessem a tal Libertadores. Prefiro acreditar no meu lado ingênuo e convencer-me do prazer que tiveram em estar presentes num momento sublime da saga daquele conjunto; que o mundo não está tão perdido e vendido como sempre supus.

Força, Flu. Rumo à Segundona ou à próxima Libertadores, estarei aqui, pelas três cores que traduzem tradição.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

"Sentimental"

Mulheres têm sentimentos. Mulheres exibem seus sentimentos. Mulheres falam sobre sentimentos.
Homens não falam sobre sentimentos. Homens fingem que não têm sentimentos. Isso não quer dizer que não os tenham.

Falo com a autoridade de quem, do alto do poço de sua maturidade, sofre do mesmo mal.
Males que vêm da infância. Nunca ousei reclamar, xingar, lamuriar ou exibir meus dotes sentimentais; nem em casa, nem na escola, nem com pais, amigos, etc.
Quando criança meu esconderijo secreto atrás do sofá era facilmente descoberto e a angústia precisava ser interrompida.
Tive que aprender uma nova técnica. Era-me conveniente entrar no banheiro, enquanto minhas lágrimas confundiam-se com as do chuveiro.

Não que eu tivesse uma infância sofrida. Nunca passei fome, nunca tive que trabalhar, nunca sequer me deram umas boas e merecidas surras. Passei por diversas casas, com gente diversa e amigos diversos em cidades diversas, mas o velho hábito não mudou e a velha armadura sempre se fez presente.
Talvez brincar de boneca e casinha sejam as soluções encontradas pelos pais para tornarem as mulheres prodigiosas artífices do sentimento. Os carrinhos com os quais brinquei não tinham muito sentimento infiltrado em seus motores.

Esconder-se talvez seja a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos.