Contempla o luar em luto pelo guerreiro desconsolado, abatido com a mera expectativa do desabrochar daquela ainda não conquistada. Afaga o disritmado pulsar no peito do algoz que outras tantas despetalou, outrora embriagado em êxtases vulgares e enfim rendido à opulência pecaminosa de uma flor ainda
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
A Flor e o Espinho
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Prelúdio
Em inútil tentativa (a pedidos) de inspiração por um possível texto sobre o amor, bem mais improvável que estes sobre qualquer banalidade, frustro-me em perceber que do amor nada entendo e pouco do que sinto entendo e tampouco do que entendo escrevo.
Do pouco que entendo da contraparte romântica, um tanto vem da fuga, outro tanto da partida. Não a habitual fuga da realidade, por meios nem sempre lícitos. Fuga da dança instável em que sempre tropeço, piso no pé e perco o ritmo. Nem falo também de partida em se tratando deste jogo sem regra e sem juiz. Aqui a falta não compensa, nem que se recorra ao clichê do lugar melhor, bem pior pros que ficam.
Embora por vezes se traduza em ausência de lágrimas, minha dor vem da dor de outrem, da dor daquele que mais a sente e não se acovarda em demonstrá-lo, tal qual o cara na imagem borrada do espelho. Vem do egoísmo da própria partida pressuposta e imaginada, quiçá sonhada ou desejada.
O desejo... Eu entendo do desejo, puro e simples. Anseio já domesticado em dias de intermináveis batalhas contra a descontrolada gula púbere. Apesar de que ainda não entendo o asco habitual ao objeto, logo que consumido. Afinal, que mal faz usufruir do vício uma vez mais? Basta falsear o desejo, embora não tão bom fingidor quanto aquelas com quem acostumara-se a lidar, aquelas a quem batia a porta sempre que precisava ou batia a face caso fosse requisitado.
Por fim, é uma coisa mais profunda que um encontro casual ou uma transa sensual, me diz um. Ele não tem pressa, ele pode esperar em silêncio, num fundo de armário... – avisa outro. Quem dera alguma frase de efeito pudesse explicar... A alma desesperada por completude tentaria com ela dizer o que nenhum desfrute de corpos alheios pode fazer sumir.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Sem Resposta
Tu me amas? Claro que sim, mulher! Não achas que se estivesse assim tão claro eu não o precisaria perguntar? Mas que sei eu do que passa em tua cabeça? Não indagas o que sinto por ti? Não, pois tenho certeza da estima que tens por mim. Não mais te importas comigo... Como podes pensar tamanha calúnia de mim? Nem percebeste que estou grávida. Mas como, se nem ao menos o aparentas? É de um menino. Que ótima notícia! O menino tem apenas 14 anos, mas jura que sou a mulher da sua vida, que vai arranjar emprego e contar aos pais do nosso relacionamento. (Sem resposta).
***
Uma esmola, por favor? Claro, aqui está. Por que me deste a esmola? Ora, porque me pediste. E fazes tudo o que te pedem? Não, mas caridade eu faço sempre que posso. Por que o fazes? Porque me sinto bem ao ajudar o próximo. Então fazes caridade porque te sentes bem? Exato. Pois fazes caridade por egoísmo? (Sem resposta).
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
A Gripe Como Ela É
Já sabemos, de acordo com as últimas tendências dos modismos gripais que nos assolaram, que frango, porco ou qualquer outro animal nada podem fazer contra a mídia que lhes impinge culpa ou o mercado que lhes exclui dos frigoríficos, sendo que os coitados não passam de carne saudável destratada e esquecida pelos consumidores ignorantes de que aqueles, na panela, não transmitem doença alguma.
Grupo de risco é a palavra de (des)ordem no vocabulário dos âncoras, mundo afora. Nele se inserem crianças, idosos, gestantes, obesos e outros tantos mais facilmente passíveis de contágio pela dita cuja. Gente outrora de nariz empinado, agora cobertos por máscaras, receosos de uma pandemia incontrolável por um sistema de saúde pública incapaz de lidar com a “crise”, mas pandemia esta que se supõe controlável por remédios absurdamente caros cedidos por uma generosa multinacional farmacêutica, a “heroína” a lucrar nisso tudo.
E o que eu posso fazer? Absolutamente nada. Lavo minhas mãos. É o que os noticiários sugerem.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Pequenos Problemas Incorrigíveis
O pequeno queria porque queria saciar-se com os doces. Os pais, que insistem vez por outra em portarem-se como tais, não os permitiam na casa, muito menos na boca do pequeno.
O pequeno resolveu aproveitar-se do descuido da empregada – essas tais que os pais pagam pra fazer as vezes de pais que não se portam como tais – que estava a lavar louças (a empregada, não o pequeno, pra quem perdeu a linha de raciocínio). Meteu-se a procurar doces casa adentro – o pequeno, não a empregada.
Achou umas balinhas azuis na gaveta do criado-mudo do papai. Achou umas balinhas brancas no armário de remédios da mamãe. Achou umas balinhas coloridas debaixo do colchão do irmãozão.
Acharam o pequeno apontando para o alto (e não era com o dedo, meus amigos), quase desacordado e
As balinhas? Continuam sendo usadas pelos outros membros da família. O pequeno continua proibido, pois as balas lhe fazem mal. Dão cáries, esse tipo de coisa...
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Desprazer
Ele sentiu fome. Um apetite voraz, daqueles de retirante sertanejo em pleno êxodo num pau-de-arara. Uma fome incomum – daquelas que fazem descrer ao assistente social lecionando planejamento familiar.
Nessa insaciável necessidade de devorar o que lhe atravessasse o caminho, sua mente abrigou um pensamento febril, indiferente aos preceitos dos mais moralistas, estes tantos hipócritas idealistas que nos surgem apenas para criticar. Não era de sua índole, embora antes que pensasse, já agia com um despudor rarefeito, esganiçado, puto da vida e com a vida que tanto lhe maltratara.
Vida da qual ela mal sabia o significado, analfabeta de parteira que era. Da volúpia mundana, da luxúria pecaminosa, de tudo que poderia um dia ser prazeroso lhe foram impostas apenas as amargas dores.
Estava preenchida com todo aquele suor repugnante, exalado por criatura idem. Para sua sorte, caso se possa assim supor por falta de palavra mais adequada cabível no vocabulário deste desalmado escrevedor, o tal voluptuoso faminto, apesar de muito bem prendado, sofreu de grave inaptidão momentânea, imprescindível para a consecução de seu objetivo.
Para seu azar, uma vez mais aqui perdoado pela pobreza criativa deste que vos fala, o tal devorador saciou sua gula, ou talvez seu orgulho, com o tradicional desfecho de assassinato digno de uma tragédia teatral. Ou provavelmente digna apenas do pouco gênio inventivo do escritor.
Concluído o ato, os demais figurantes continuaram com seus afazeres, perversões e orgias. O cotidiano do cabaré não mudaria por culpa de qualquer puta morta.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Ao mestre com carinho
Querido Professor,
Soube que o senhor sabe, como poucos, a arte de dizer muito, dizendo muito pouco. Embora não dês importância a este que te importuna com tamanhos infortúnios, nem provoque os que merecem ser postos à prova, mesmo que lhes desaprove o comportamento reprovável – seja qual for teu método avaliativo para tanto – venho por meio desta carta relatar-te meu apreço por tão digníssima personalidade.
És, a meu ver, algo como um dedicado jardineiro exaustivamente capaz de podar o crescimento das inofensivas plantinhas sob teus cuidados, para que estas não te atrapalhem o caminho, mas que continuem adornando o ambiente, silentes e atentas a menor brisa que te sopra a face desgastada.
Apesar da aparência decadente e abatida, realizas teu trabalho com um ar de imenso prazer, que irrompe do exagerado apreço que tens para com tua pessoa, trazendo sempre consigo o velho sorriso amarelo no canto da boca – junto a uma teimosa saliva a escorrer com freqüência.
Não me entendas mal. Não diminuo teu esforço na árdua tarefa de educar (lecionar, ensinar, ou qualquer outro sinônimo que te convenha), embora por meios que certas vezes te entediem, beirando à sonolência. Tarefa árdua sim, visível que é no teu suor e teu odor que desagradam a alguns dos mais puritanos. Eu não... Eu creio no teu amor ao trabalho, assim como crês orgulhosamente na sinceridade que teus pupilos empenham ao te acariciar o ego e te lustrar com desdém a testa desmatada pela calvície.
Apesar de meu limitado vocabulário, a intenção foi apenas de explicar-te a estima que te tenho, querido professor. Se me delongo em elogios, culpa minha, que não me caibo nesta cadeira desconfortável durante estas horas de palavras tão reconfortantes em tua companhia. Espero com esta singela homenagem conquistar-te não o coração (que este já deve estar deveras maltratado, caso o possuas), mas alguma pouca simpatia. Não que a indiferença já não me seja mais que suficiente.
Do teu dedicado discípulo.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Explicando o Recesso
Escrever é preciso, apesar de não explicar-te nada, meu caro. Nem sobre que merda escrevo, nem em que merda penso. Saiba de mim apenas que dias inglórios ainda hão de vir, quando serei capaz de sentir fazendo sentido.
Nada tenho a dizer que já não se saiba de mim e que esta falsa transparência traduz em sentimentos íntegros, mesmo que desonestos para com meu sagaz interlocutor, que tem de se dar por satisfeito em refletir-lhe este bon-vivant decadente e incapaz de lamuriar-se em constante auto-flagelação pública.
Escrevo porque é melhor exorcizar meus males em letras que disfarçá-los em sorrisos.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Primeiro Amor
Ela era bela. Não que meu padrão de qualidade fosse uma tal beleza incomparável, mas que para minha inocente visão apaixonada, era bela sim. Não tinha formas de musa inspiradora, mas tinha aquele necessário ar de musa ao meu olhar. Minha visão talvez estivesse turva pela paixonite infantil, mas eu me achava o Quasimodo trôpego que nunca a obteria, intocável que ela era pela timidez do contato espacial diário resumido à sala de aula.
A beleza dela estava apenas em meus olhos, o que não me foi tão óbvio assim. E que o padrão do belo esculpido ao longo dos anos pelas discriminações de amigos, sorrisos indiscretos, tapinhas nas costas e estereótipos curvilíneos me envergonha, isso é fato. Mas que ela tinha aquela aura que chamou a atenção como nenhuma outra, isso tinha.
Talvez pelo inatingível que fosse aquele amor, que eu nem sabia amor e que nem o sei ‘inda hoje, eu tremesse de paixão a qualquer sinal de proximidade. Prefiro pensar que talvez fosse porque ela tinha lindos cabelos esvoaçantes e sujos quando descia o escorregador e tinha perninhas tortas cheias de feridas de criança irrequieta e um andar de pinguim desengonçado provocado pelas perninhas tortas.
Queria ter de volta aquele apego à feiúra que a tornava bela. Queria ter de volta o amor às banalidades que fazem da mulher um ser amável. Queria não ter sofrido as mutações que os sorrisos de desaprovação me provocaram. E como eu queria poder reviver novamente aquela pequena paixão platônica pra poder dizê-la que de mim não fugisse. E pediria que ela me ensinasse como voltar a ser a criança apaixonada e apaixonável e destronasse o adulto imaturo dos falsos moralismos.
terça-feira, 2 de junho de 2009
Há de chegar meu dia
Um dia serei eu a ingerir qualquer etílico nobre que me faça rir e chorar sem razão aparente, cercado daqueles que me amaram por toda uma vida.
Um dia serei eu a lamuriar a falta de saúde, a resmungar da comida que não apetece, a fazer uma falsa raiva a quem me cuida, apenas por travessura que a idade me vai permitir.
Um dia serei eu a querer o egoísmo de desistir, sem me permitir pensar nas vontades e necessidades alheias que tanto me aborrecem.
Um dia serei eu o que só fez o bem, o que só teve virtudes, o que vai deixar saudades eternas. Serei eu a ir-me embora e a fazer sofrer os que aqui ficarem.
Um dia serei eu o que representava tudo para alguém.
Alguém que não sabe se pode suportar o peso da vida sem aquela presença.