segunda-feira, 18 de julho de 2011

Empreendedor à moda antiga

E foi assim que tudo sempre foi. Chegavam com sorriso sorrateiro e desonesto lhe roubando o riso largo e sincero. A produção industrial, antes em larga escala e de lucros otimizáveis, foi dando lugar à recessão profunda. Adquiria quinquilharias superfaturadas no escambo desvalorizado. Não achou mais quem lho assegurasse o bem por vezes surrupiado.

Mudou de ramo, mantendo-se no mercado. Mais valia agora seu trabalho artesanal. Qualificando mão de obra, diminuiu a oferta, alimentando a demanda por encomenda, vislumbrando poucos riscos ao empreendimento. Falhou, não por demérito ou inépcia, mas porque seu serviço prestado foi desvalorizado ante os tantos furtos sofridos.

Não mais confiava na segurança pública oferecida. Andava a suspeitar que jocosamente espreitavam-no para um novo golpe aplicar. Ora pensou contratar a iniciativa privada, ora pensou ir à justiça, com as próprias mãos não o poderia fazer. Pois que nada fez e reiteradas vezes reincidiram sobre o coitado em ato furtivo.

Paupérrimo, sem o que dele ‘inda se pudesse aproveitar, entalhou à porta do estabelecimento vazio, aos próximos que ali adentrassem: Aqui deste mercante amante moribundo, só peço que de agora em diante leves apenas um souvenir por vez, em vez de o estoque inteiro. E que se vá.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Corpo a Corpo

Era uma vez um corpo.
O corpo percebeu a presença de um outro corpo. Logo, o desejou.
Era um outro corpo deveras desejável, confesso, embora de índole duvidosa – como o são geralmente tais corpos intratantes.
Receoso de envolver-se noutro corpo que não seu, resguardou-se ao seu platonismo na solidão do banheiro imundo, com seus pensamentos imundos.
O desejável, ciente de sua adjetivação, tratou de ludibriar o receoso o quanto pôde, por mero gozo em ser algoz e fazer agonizar o corpo alheio.
O receoso, um mirrado coitado, procrastinou o quanto pôde seu intento, no intuito de desestimular tão intenso estímulo.
Caíram porém em tentação, reincidindo em pecaminoso hábito orgástico.
E viveram felizes para sempre por mais alguns segundos.

domingo, 21 de março de 2010

À Pequena

Queria te proteger disso tudo. Imortalizar esse sorriso impagável diante de toda essa vidinha intragável. Livrar-te de todo o mal, sem um desnecessário amém, apenas amando-te. Dizer que serás sempre pequena. Minha pequena. E que serás linda para todo o sempre e que algum outro no mundo irá amar-te para todo o sempre. Te contarei estas tantas inverdades até que não tenha mais forças para tanto. Então, minha pequena não será mais pequena, nem será apenas minha. Trará a dor desprezível dos comuns e o sorriso amarelo cheio de dentes e dúvidas e anseios e amores. Eu então já não terei tantos dentes, anseios ou amores. Serei apenas teu velho cansado, tomarei minha última dose e tu me colocarás para dormir. E contarás aos teus pequenos que foste também apenas uma pequena. A minha.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O Estranho

Tempos atrás, tinha apagado o texto abaixo. Mas sinto que posso publicá-lo agora, da mesma forma a que veio ao mundo. =)

***

O bar não tinha mais o mesmo aspecto decadente e imundo que ele sempre admirou. Recebia hóspedes inusitados, um tanto ilustres, outro tanto esnobes. Os adversários de copo já não eram à altura, não mais havia reciprocidade de brindes e a árdua batalha pela embriaguez já não importava.

Era uma alma estranha aquela, atormentada por uma consciência. É, simples assim, uma consciência e pronto. Nem todos têm consciência e nem todas as consciências atormentam, ora.

Sofria um mal não tão incomum, que podemos chamar, digamos, de “melancolia crônica sem causa aparente”. Ou outro nome qualquer que pelo exagero ortográfico possa suprimir a inexistência de sintomas e tratamentos.

Tenho pena dele, mas não deixarei que saiba. É exatamente o que ele quer: que sintam remorso pela sua aparência repugnante. Nojo, talvez. Acho que ele gostaria de um pouco disso, mesmo sabendo que “asco” é uma palavra mais bonita e que ele se encanta com palavras bonitas.

Não que fosse tudo desinteressante. Ele que não era interessante. E não, não demorou toda uma vida para perceber isso – apenas para constatar.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ela

Não há corpo que lhe resista, seja velho ou jovem, seja de rabinho abanando ou olhar carente. Não há físico que lhe escape, nem física que possa explicar por que meio químico seu poder de atração se torna inevitável. Desvendá-la pode ser mistério ímpar, igualável ao por quê dos por quês nunca respondidos.


Ela aprontando das dela e eu aqui sem nada fazer, pensando e repensando o que fazer embora não haja o que se fazer. Idealizo e insisto no pensar, que por ora me apetece, mas que logo mais me entristece e me perturba o sono já escasso e maltrapilho.


De tanto pensar-te sinto conduzir-me em caminhos por vezes sinuosos, atalhos impróprios ou desvios inviáveis, que no mais apenas retardam nosso destino e nosso encontro ao fim da estrada, a ocorrer muito provavelmente em dia e hora igualmente impróprias e inviáveis.


Mas cá estou, minha cara, e contigo uma vez mais espero contar quando nosso dia chegar, que por ti estarei a esperar pois que apenas tu és certa e definitiva a me levar e fazer reencontrar os meus, já entregues aos teus cuidados eternos.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A Flor e o Espinho

Contempla o luar em luto pelo guerreiro desconsolado, abatido com a mera expectativa do desabrochar daquela ainda não conquistada. Afaga o disritmado pulsar no peito do algoz que outras tantas despetalou, outrora embriagado em êxtases vulgares e enfim rendido à opulência pecaminosa de uma flor ainda em botão. Ouve a concha a ecoar as eternas lágrimas do mar sobre a areia virgem, que do amor só conheceu os amantes por sobre ela estendidos em deleite voluptuoso na escuridão inóspita, apenas com a lua desdenhosa a lhes vigiar. Sente o aroma exalado pelo que o insensível coração teima não contar ao humilde carcereiro, que de mortalha em riste torna-se escravo do perfume inebriante. Beija por fim este corpo cansado, que te pertence mesmo quando perdido em outros corpos cansados, em outras batalhas inevitáveis, em outras flores ainda por desabrochar e despetalar...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Prelúdio

Em inútil tentativa (a pedidos) de inspiração por um possível texto sobre o amor, bem mais improvável que estes sobre qualquer banalidade, frustro-me em perceber que do amor nada entendo e pouco do que sinto entendo e tampouco do que entendo escrevo.


Do pouco que entendo da contraparte romântica, um tanto vem da fuga, outro tanto da partida. Não a habitual fuga da realidade, por meios nem sempre lícitos. Fuga da dança instável em que sempre tropeço, piso no pé e perco o ritmo. Nem falo também de partida em se tratando deste jogo sem regra e sem juiz. Aqui a falta não compensa, nem que se recorra ao clichê do lugar melhor, bem pior pros que ficam.


Embora por vezes se traduza em ausência de lágrimas, minha dor vem da dor de outrem, da dor daquele que mais a sente e não se acovarda em demonstrá-lo, tal qual o cara na imagem borrada do espelho. Vem do egoísmo da própria partida pressuposta e imaginada, quiçá sonhada ou desejada.


O desejo... Eu entendo do desejo, puro e simples. Anseio já domesticado em dias de intermináveis batalhas contra a descontrolada gula púbere. Apesar de que ainda não entendo o asco habitual ao objeto, logo que consumido. Afinal, que mal faz usufruir do vício uma vez mais? Basta falsear o desejo, embora não tão bom fingidor quanto aquelas com quem acostumara-se a lidar, aquelas a quem batia a porta sempre que precisava ou batia a face caso fosse requisitado.


Por fim, é uma coisa mais profunda que um encontro casual ou uma transa sensual, me diz um. Ele não tem pressa, ele pode esperar em silêncio, num fundo de armário... – avisa outro. Quem dera alguma frase de efeito pudesse explicar... A alma desesperada por completude tentaria com ela dizer o que nenhum desfrute de corpos alheios pode fazer sumir.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Sem Resposta

Tu me amas? Claro que sim, mulher! Não achas que se estivesse assim tão claro eu não o precisaria perguntar? Mas que sei eu do que passa em tua cabeça? Não indagas o que sinto por ti? Não, pois tenho certeza da estima que tens por mim. Não mais te importas comigo... Como podes pensar tamanha calúnia de mim? Nem percebeste que estou grávida. Mas como, se nem ao menos o aparentas? É de um menino. Que ótima notícia! O menino tem apenas 14 anos, mas jura que sou a mulher da sua vida, que vai arranjar emprego e contar aos pais do nosso relacionamento. (Sem resposta).


***


Uma esmola, por favor? Claro, aqui está. Por que me deste a esmola? Ora, porque me pediste. E fazes tudo o que te pedem? Não, mas caridade eu faço sempre que posso. Por que o fazes? Porque me sinto bem ao ajudar o próximo. Então fazes caridade porque te sentes bem? Exato. Pois fazes caridade por egoísmo? (Sem resposta).

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A Gripe Como Ela É

A mídia alavanca uma vez mais a “crise de extinção da raça humana” em nome da suposta periculosidade de uma nova gripe. E por mais que soe ridículo, o porco é o bode expiatório da vez.

Já sabemos, de acordo com as últimas tendências dos modismos gripais que nos assolaram, que frango, porco ou qualquer outro animal nada podem fazer contra a mídia que lhes impinge culpa ou o mercado que lhes exclui dos frigoríficos, sendo que os coitados não passam de carne saudável destratada e esquecida pelos consumidores ignorantes de que aqueles, na panela, não transmitem doença alguma.

Grupo de risco é a palavra de (des)ordem no vocabulário dos âncoras, mundo afora. Nele se inserem crianças, idosos, gestantes, obesos e outros tantos mais facilmente passíveis de contágio pela dita cuja. Gente outrora de nariz empinado, agora cobertos por máscaras, receosos de uma pandemia incontrolável por um sistema de saúde pública incapaz de lidar com a “crise”, mas pandemia esta que se supõe controlável por remédios absurdamente caros cedidos por uma generosa multinacional farmacêutica, a “heroína” a lucrar nisso tudo.

E o que eu posso fazer? Absolutamente nada. Lavo minhas mãos. É o que os noticiários sugerem.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Pequenos Problemas Incorrigíveis

O pequeno queria porque queria saciar-se com os doces. Os pais, que insistem vez por outra em portarem-se como tais, não os permitiam na casa, muito menos na boca do pequeno.


O pequeno resolveu aproveitar-se do descuido da empregada – essas tais que os pais pagam pra fazer as vezes de pais que não se portam como tais – que estava a lavar louças (a empregada, não o pequeno, pra quem perdeu a linha de raciocínio). Meteu-se a procurar doces casa adentro – o pequeno, não a empregada.


Achou umas balinhas azuis na gaveta do criado-mudo do papai. Achou umas balinhas brancas no armário de remédios da mamãe. Achou umas balinhas coloridas debaixo do colchão do irmãozão.


Acharam o pequeno apontando para o alto (e não era com o dedo, meus amigos), quase desacordado e em transe. Demitiram a empregada, acusada de desleixo e irresponsabilidade, porque pais não se podem demitir assim por qualquer bobagem.


As balinhas? Continuam sendo usadas pelos outros membros da família. O pequeno continua proibido, pois as balas lhe fazem mal. Dão cáries, esse tipo de coisa...