segunda-feira, 11 de maio de 2009

À decadência II


Bela tradução do que eu poderia dizer sobre o fim dos meus vinte anos.
Completa-se ano que aqui escrevo, que aqui aprendo e expurgo os males. Completam-se, em breve, vinte e um anos que aqui estou.

Já escrevi que não gosto de aniversário. Por infelicidade, pouco mudou meu modo de pensar e repito:

"Os humanos são estranhos, têm cada costume esquisito que comemoram até mesmo a decadência da vida.

Escutar palavras de carinho regadas a tapinha no ombro e abraços emocionados (estes últimos após alguns litros vazios), depois, ser elogiado por tudo que você já construiu na vida (nada, no caso) e tudo que irá construir.

Saber que se estão esvaindo os melhores dias de sua vida, ou apenas que você está morrendo lentamente sem se dar conta de que não teve melhores dias, e festejar o acontecimento nunca me pareceu interessante.

Ah, esses humanos... Inventam cada circo...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Doce Lar

Acabo de chegar em casa e encontro a maior algazarra. Boa bebida, boa música, boa companhia. Uma coleção de garrafas acompanha a coletividade de degustadores, sempre entusiasmados em esvaziar mais uma garrafa.

Velho e novo sentam na mesma mesa, dama e vagabundo comem da mesma comida, professor a aluno bebem da mesma bebida. O cantor de chuveiro se junta ao tocador caseiro – não o de banheiro, por favor.

Aqui meu amigo se faz dono: pega a bebida e vem pra minha mesa como se estivesse na sua própria casa; canta e chora naquela velha canção comigo, como se fosse sua canção; repete aos presentes a minha piada como se fosse sua piada.

Em minha casa ele se embriaga comigo e vomita versos amigos em sincronia ao tira-gosto mal digerido. Acabo repetindo o gesto, por pura amizade. É meu amigo e na minha casa ele faz como bem entender, afinal, com ele estou sempre em dívida.

Minha casa é a casa dos ébrios desesperados, da malandragem praticada por uma escória indecente, dos órfãos de uma saudosa boemia moralmente questionável.

Na minha casa funciona um bar. O meu bar é a casa do Brito.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Arca Universal

Parece brincadeira de mau gosto mas não é. Talvez seja então brincadeira de mau gosto da minha parte rir de tamanhã pilhéria (ou pilhagem) realizada por um certo executivo.

Em seu blog, o citado empreendedor utiliza-se da prerrogativa dos "gastos exorbitantes" de manutenção de seu portal para realizar uma campanha cujo objetivo é continuar (não ampliar, porque aí falta verba) a saga dos sites vinculados ao portal e à sua empresa igreja. Gastos estes devidamente publicados pelo digno senhor, para que não fiquem por aí falando em transparência financeira, ora essa!

"- Hospedagem de Servidores
- Salário dos Funcionários
- Serviço de Imagens
- Luz/Água/Telefone + Gastos Administrativos
Em um Total de Custos de: R$ 107.622,00"

Conclui o doutrinador com a inspirada frase: "Se o Espírito Santo lhe tocar para nos ajudar a carregar essa responsabilidade, então faça sua doação da seguinte forma:

Bradesco
Agência: ----
C/C: ----

Banco do Brasil
Agência: ----
C/C: ----"

Me tocar? Varei-te! Quer dizer, não varei-te não! Quero dizer... Perdão Senhor, mas devo pedir perdão a qual senhor? O tal executivo?

Fica minha sugestão de jovem empreendedor: Envie uma corrente aos seus amigos (ou correligionários) pedindo o envio de R$ 1 à sua conta em nome das criancinhas com AIDS na África. Quem sabe com a arrecadação você consiga até abrir uma igreja. Ou uma empresa. Sim, dizem as más línguas que ainda são coisas distintas.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Prisão Perpétua (Jardim dos Animais)

Caros amigos, eu fui passear, sem mais o que fazer. Tive pena do que vi.

Voltemo-nos ao local de visita. Os animaizinhos estavam lá, como era de se esperar. Em exibição, entretendo os transeuntes e eles mesmos também transitando de lado a outro sem rumo algum, sem sequer ciência de poderem rumar a qualquer lugar; não achando sentido algum em suas vidas nem supondo que uma vida deva ter algum sentido. De dar pena.

Não era passeio de se esperar grandes surpresas. Todos os tantos animais que eu supunha estavam presentes: o macaquinho tentando chamar atenção com palhaçadas, o elefante tentando parecer intelectual, a coruja tentando parecer enigmática, a onça pintada tentando parecer mais pintada que as outras, o cavalo tentando não parecer tão burro quanto o burro...

Estavam confinados aos muros da ignorância em que viviam, onde deveriam aparentar domesticados, dóceis, belos e asseados, tal qual lhes era imposto. Se alimentando das pequenas porções de ilusão que lhes eram servidas para que não se rebelassem contra o sistema carcerário vigente, nem se apercebessem da pequenez a que se obrigavam cotidianamente. Uma pena mesmo.

Por fim, tive pena de mim mesmo, meus amigos.
Juro que nunca mais visito um shopping center.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Ciências Contábeis

Escrevo para contar que não conto nada, só finjo contar que conto. Nem sou bom de contas nem de contos e sempre me faço crer que um a mais é sempre mais que um a menos, desde que o a mais faça esquecer o de menos e todo o resto, ou que ao menos alivie tudo que há de mais.


O menos um não conta saldo e o mais um fica mais em conta na dívida. São sempre contas erradas e o conto sai errado, porque contar mais um é mera contagem de corpos no meu cardápio obituário.


Sigo contando involuntariamente as contas de uma vida de incontáveis contos que não serão depois contados, porque não valem nem o contador, nem o contista, nem quem os conte. E não me satisfaz nem um pouco aludir à contagem e suas diversas conotações, pois que não sou calculista nem letrista e só conto por contar.


Por hora, pago a conta e saio contando as horas pro próximo algarismo por vir.

domingo, 12 de abril de 2009

Bilhete

"Era de se esperar essa carcaça estúpida, malandra, grosseira, insensível, imoral.
Sou hoje aquilo que me envergonho de um dia querer ter sido."

Achado no (lixo) meu quarto. Sem data e sem contexto, mas de conteúdo e concordância com a realidade.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

"Como um desejo de eu viver sem me notar"


Tá vendo essa vergonha, seu moço? É por ter que pedir e ter sempre negado. Tá vendo esse rosto sujo, essa roupa maltrapilha? É coisa do descaso de quem não cria caso com qualquer coisa. Tá vendo essas mãos calejadas? É de não achar trabalho aceitável, mas conseguir achar lixo comestível.


E o moço, com vergonha da origem nobre e da falta de nobreza de caráter; com vergonha do pesar de lágrimas contidas e apesar de saber-se afortunado; com vergonha das mãos delicadas que nunca trabalharam e das mãos que escreveriam o que o outro não seria capaz de ler, ficou ali parado diante daquele velho.


Velho olhar cansado. Olhar de fome e medo, misturado à apatia da rotina que o consumia, do habitual asco dos limpos e apressados que por lá passavam, de lá olhavam e lá mesmo rejeitavam.


O moço cedeu-lhe umas poucas moedas que trazia consigo, nada mais. Recebeu um agradecimento padrão, nada mais.


E o sinal abriu.

E a vida prosseguiu.

E as noites de insônia se intensificaram.

sábado, 28 de março de 2009

...Eis a Questão

Não se é meramente aquilo que se vê. Não enxergamos todo esse enquadramento de 180º que diminuirá ao longo do desgaste das retinas, do desgaste da alma, que vai se tornando adulta, triste e solitária, até que aprende a olhar apenas para si mesma.

Será que me vêem como sou ou será que sou como me vêem, exatamente como não quero que vejam? Pareço ser aquilo que sou ou será que sou aquilo que pareço ser, exatamente o que não quero parecer? Nem jogo de palavras é solução, nem a solução me parece estar em palavras.

Não! Por que os outros seriam da forma como os vejo? Assim, de que serviriam os outros sentidos se somente um nos fosse suficiente?

Sei que posso ser o que sempre quis. Mas se nem sempre quis ser aquilo que sou, muito menos sei se o que quero ser será aquilo que um dia quererei.

Duas definições peculiares marcaram o modo de enxergar a mim mesmo. Palavras sinceras e frustrantes, quase humilhantes, adjetivações ofensivas, ditas oportunamente por quem me abriria os olhos. Para alguém habituado ao exercício do esquecer, palavras que souberam, ao seu jeito, ensinar.

A primeira deu-se quando ouvi ser a decepção de quem eu sempre me esforcei em orgulhar, esforço que era em geral insuficiente. Daí a descobrir que o tal clichê realmente ensina a viver custa-me quase uma década e ainda não ensinou pra quê veio de fato; mas abriu um precedente único: vasculhar meus próprios defeitos e descobrir-me, a cada passo, a cada ato.

A segunda? Daqui a uma década espero ter a resposta moldada em meu caráter.

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
[...]
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
[...]
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta."

sexta-feira, 13 de março de 2009

Indeciso? Talvez

Sempre fui uma pessoa muito decidida. Decidi desde cedo que os outros decidiriam por mim.


Decidi não tomar importantes decisões, não viver grandes aventuras, não amar intensas paixões. Houve sempre quem o fizesse por mim.


A indecisão até que me cai bem: faço planos nunca realizados, durmo sonhos nunca lembrados, choro lágrimas nunca roladas, romantizo amores nunca vividos.


Falho em tudo, peco pelo despropósito, condeno-me voluntariamente a passar pela vida e não viver.


Uma lição de vida: o mundo é um lugar triste. Tenha medo da felicidade, tal qual este que vos fala.


Essa merda parece auto-ajuda.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Homenagem ao Malandro

Eis o malandro.


Nunca soube apreciar o gracejo de um sorriso feminino e suas intenções muito bem escondidas, desvendar o falso desinteresse romântico incrustado na suavidade de um perfume ou o apelo sensual disfarçado num vestidinho decotado que dá contornos inocentes, quase angelicais, àquela tentação de salto-alto.


Qual o sentido dos flertes intermináveis se ao fim da noite os corpos tinham uma só necessidade? Desdenhava de sua falta de tato pisando, quase que sem querer, no coração alheio; tornando-se a cada contradança o diamante lapidado dos cabarés, o messias fajuto dos pagãos, o “barão da ralé” que tanto almejava na infância.


Pensou conseguir enganar a si mesmo, ser imune àquele vírus. Atordoado, talvez fosse tarde para regenerar-se, mas acreditou piamente poder tornar-se um homem honesto, um homem honrado, um homem bom, um homem...


Ah, mas olha lá quem passa! Olha as más intenções por sobre aquele salto-alto, o gracejo nas curvas debaixo do vestidinho curto, a tentação dos cabelos esvoaçando e levemente recaindo sobre o decote...


Eis que surge o malandro outra vez.