quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O Estranho

Tempos atrás, tinha apagado o texto abaixo. Mas sinto que posso publicá-lo agora, da mesma forma a que veio ao mundo. =)

***

O bar não tinha mais o mesmo aspecto decadente e imundo que ele sempre admirou. Recebia hóspedes inusitados, um tanto ilustres, outro tanto esnobes. Os adversários de copo já não eram à altura, não mais havia reciprocidade de brindes e a árdua batalha pela embriaguez já não importava.

Era uma alma estranha aquela, atormentada por uma consciência. É, simples assim, uma consciência e pronto. Nem todos têm consciência e nem todas as consciências atormentam, ora.

Sofria um mal não tão incomum, que podemos chamar, digamos, de “melancolia crônica sem causa aparente”. Ou outro nome qualquer que pelo exagero ortográfico possa suprimir a inexistência de sintomas e tratamentos.

Tenho pena dele, mas não deixarei que saiba. É exatamente o que ele quer: que sintam remorso pela sua aparência repugnante. Nojo, talvez. Acho que ele gostaria de um pouco disso, mesmo sabendo que “asco” é uma palavra mais bonita e que ele se encanta com palavras bonitas.

Não que fosse tudo desinteressante. Ele que não era interessante. E não, não demorou toda uma vida para perceber isso – apenas para constatar.

2 comentários:

Ranayana Almeida disse...

Você sabe o quanto fico feliz por poder ler esse texto por completo.

=]

Anônimo disse...

Saudades de suas 'viagens' literárias...
Tá cansadinho, hein?
bjs do velhinho.