O bar não tinha mais o mesmo aspecto decadente e imundo que ele sempre admirou. Recebia hóspedes inusitados, um tanto ilustres, outro tanto esnobes. Os adversários de copo já não eram à altura, não mais havia reciprocidade de brindes e a árdua batalha pela embriaguez já não importava.
Era uma alma estranha aquela, atormentada por uma consciência. É, simples assim, uma consciência e pronto. Nem todos têm consciência e nem todas as consciências atormentam, ora.
Sofria um mal não tão incomum, que podemos chamar, digamos, de “melancolia crônica sem causa aparente”. Ou outro nome qualquer que pelo exagero ortográfico possa suprimir a inexistência de sintomas e tratamentos.
Tenho pena dele, mas não deixarei que saiba. É exatamente o que ele quer: que sintam remorso pela sua aparência repugnante. Nojo, talvez. Acho que ele gostaria de um pouco disso, mesmo sabendo que “asco” é uma palavra mais bonita e que ele se encanta com palavras bonitas.
Não que fosse tudo desinteressante. Ele que não era interessante. E não, não demorou toda uma vida para perceber isso – apenas para constatar.
Não há corpo que lhe resista, seja velho ou jovem, seja de rabinho abanando ou olhar carente. Não há físico que lhe escape, nem física que possa explicar por que meio químico seu poder de atração se torna inevitável. Desvendá-la pode ser mistério ímpar, igualável ao por quêdos por quês nunca respondidos.
Ela aprontando das dela e eu aqui sem nada fazer, pensando e repensando o que fazer embora não haja o que se fazer. Idealizo e insisto no pensar, que por ora me apetece, mas que logo mais me entristece e me perturba o sono já escasso e maltrapilho.
De tanto pensar-te sinto conduzir-me em caminhos por vezes sinuosos, atalhos impróprios ou desvios inviáveis, que no mais apenas retardam nosso destino e nosso encontro ao fim da estrada, a ocorrer muito provavelmente em dia e hora igualmente impróprias e inviáveis.
Mas cá estou, minha cara, e contigo uma vez mais espero contar quando nosso dia chegar, que por ti estarei a esperar pois que apenas tu és certa e definitiva a me levar e fazer reencontrar os meus, já entregues aos teus cuidados eternos.
Contempla o luar em luto pelo guerreiro desconsolado, abatido com a mera expectativa do desabrochar daquela ainda não conquistada. Afaga o disritmado pulsar no peito do algoz que outras tantas despetalou, outrora embriagado em êxtases vulgares e enfim rendido à opulência pecaminosa de uma flor ainda em botão. Ouve a concha a ecoar as eternas lágrimas do mar sobre a areia virgem, que do amor só conheceu os amantes por sobre ela estendidos em deleite voluptuoso na escuridão inóspita, apenas com a lua desdenhosa a lhes vigiar. Senteo aroma exalado pelo que o insensívelcoração teima não contar ao humilde carcereiro, que de mortalha em riste torna-se escravo do perfume inebriante. Beija por fim este corpo cansado, que te pertence mesmo quando perdido em outros corpos cansados, em outras batalhas inevitáveis, em outras flores ainda por desabrochar e despetalar...
Em inútil tentativa (a pedidos) de inspiração por um possível texto sobre o amor, bem mais improvável que estes sobre qualquer banalidade, frustro-me em perceber que do amor nada entendo e pouco do que sinto entendo e tampouco do que entendo escrevo.
Do pouco que entendo da contraparte romântica, um tanto vem da fuga, outro tanto da partida. Não a habitual fuga da realidade, por meios nem sempre lícitos. Fuga da dança instável em que sempre tropeço, piso no pé e perco o ritmo. Nem falo também de partida em se tratando deste jogo sem regra e sem juiz. Aqui a falta não compensa, nem que se recorra ao clichê do lugar melhor, bem pior pros que ficam.
Embora por vezes se traduza em ausência de lágrimas, minha dor vem da dor de outrem, da dor daquele que mais a sente e não se acovarda em demonstrá-lo, tal qual o cara na imagem borrada do espelho. Vem do egoísmo da própria partida pressuposta e imaginada, quiçá sonhada ou desejada.
O desejo... Eu entendo do desejo, puro e simples. Anseio já domesticado em dias de intermináveis batalhas contra a descontrolada gula púbere. Apesar de que ainda não entendo o asco habitual ao objeto, logo que consumido. Afinal, que mal faz usufruir do vício uma vez mais? Basta falsear o desejo, embora não tão bom fingidor quanto aquelas com quem acostumara-se a lidar, aquelas a quem batia a porta sempre que precisava ou batia a face caso fosse requisitado.
Por fim, é uma coisa mais profunda que um encontro casual ou uma transa sensual, me diz um. Ele não tem pressa, ele pode esperar em silêncio, num fundo de armário... – avisa outro. Quem dera alguma frase de efeito pudesse explicar... A alma desesperada por completude tentaria com ela dizer o que nenhum desfrute de corpos alheios pode fazer sumir.
Tu me amas? Claro que sim, mulher! Não achas que se estivesse assim tão claro eu não o precisaria perguntar? Mas que sei eu do que passa em tua cabeça? Não indagas o que sinto por ti? Não, pois tenho certeza da estima que tens por mim. Não mais te importas comigo... Como podes pensar tamanha calúnia de mim? Nem percebeste que estou grávida. Mas como, se nem ao menos o aparentas? É de um menino. Que ótima notícia! O menino tem apenas 14 anos, mas jura que sou a mulher da sua vida, que vai arranjar emprego e contar aos pais do nosso relacionamento. (Sem resposta).
***
Uma esmola, por favor? Claro, aqui está. Por que me deste a esmola? Ora, porque me pediste. E fazes tudo o que te pedem? Não, mas caridade eu faço sempre que posso. Por que o fazes? Porque me sinto bem ao ajudar o próximo. Então fazes caridade porque te sentes bem? Exato. Pois fazes caridade por egoísmo? (Sem resposta).
A mídia alavanca uma vez mais a “crise de extinção da raça humana” em nome da suposta periculosidade de uma nova gripe. E por mais que soe ridículo, o porco é o bode expiatório da vez.
Já sabemos, de acordo com as últimas tendências dos modismos gripais que nos assolaram, que frango, porco ou qualquer outro animal nada podem fazer contra a mídia que lhes impinge culpa ou o mercado que lhes exclui dos frigoríficos, sendo que os coitados não passam de carne saudável destratada e esquecida pelos consumidores ignorantes de que aqueles, na panela, não transmitem doença alguma.
Grupo de risco é a palavra de (des)ordem no vocabulário dos âncoras, mundo afora. Nele se inserem crianças, idosos, gestantes, obesos e outros tantos mais facilmente passíveis de contágio pela dita cuja. Gente outrora de nariz empinado, agora cobertos por máscaras, receosos de uma pandemia incontrolável por um sistema de saúde pública incapaz de lidar com a “crise”, mas pandemia esta que se supõe controlável por remédios absurdamente caros cedidos por uma generosa multinacional farmacêutica, a “heroína” a lucrar nisso tudo.
E o que eu posso fazer? Absolutamente nada. Lavo minhas mãos. É o que os noticiários sugerem.
O pequeno queria porque queria saciar-se com os doces. Os pais, que insistem vez por outra em portarem-se como tais, não os permitiam na casa, muito menos na boca do pequeno.
O pequeno resolveu aproveitar-se do descuido da empregada – essas tais que os pais pagam pra fazer as vezes de pais que não se portam como tais – que estava a lavar louças (aempregada, não o pequeno, pra quem perdeu a linha de raciocínio). Meteu-se a procurar doces casa adentro – o pequeno, não a empregada.
Achou umas balinhas azuis na gaveta do criado-mudo do papai. Achou umas balinhas brancas no armário de remédios da mamãe. Achou umas balinhas coloridas debaixo do colchão do irmãozão.
Acharam o pequeno apontando para o alto (e não era com o dedo, meus amigos), quase desacordado e em transe. Demitiram a empregada, acusada de desleixo e irresponsabilidade, porque pais não se podem demitir assim por qualquer bobagem.
As balinhas? Continuam sendo usadas pelos outros membros da família. O pequeno continua proibido, pois as balas lhe fazem mal. Dão cáries, esse tipo de coisa...
Ele sentiu fome. Um apetite voraz, daqueles de retirante sertanejo em pleno êxodo num pau-de-arara. Uma fome incomum – daquelas que fazem descrer ao assistente social lecionando planejamento familiar.
Nessa insaciável necessidade de devorar o que lhe atravessasse o caminho, sua mente abrigou um pensamento febril, indiferente aos preceitos dos mais moralistas, estes tantos hipócritas idealistas que nos surgem apenas para criticar. Não era de sua índole, embora antes que pensasse, já agia com um despudor rarefeito, esganiçado, puto da vida e com a vida que tanto lhe maltratara.
Vida da qual ela mal sabia o significado, analfabeta de parteira que era. Da volúpia mundana, da luxúria pecaminosa, de tudo que poderia um dia ser prazeroso lhe foram impostas apenas as amargas dores.
Estava preenchida com todo aquele suor repugnante, exalado por criatura idem. Para sua sorte, caso se possa assim supor por falta de palavra mais adequada cabível no vocabulário deste desalmado escrevedor, o tal voluptuoso faminto, apesar de muito bem prendado, sofreu de grave inaptidão momentânea, imprescindível para a consecução de seu objetivo.
Para seu azar, uma vez mais aqui perdoado pela pobreza criativa deste que vos fala, o tal devorador saciou sua gula, ou talvez seu orgulho, com o tradicional desfecho de assassinato digno de uma tragédia teatral. Ou provavelmente digna apenas do pouco gênio inventivo do escritor.
Concluído o ato, os demais figurantes continuaram com seus afazeres, perversões e orgias. O cotidiano do cabaré não mudaria por culpa de qualquer puta morta.
Soube que o senhor sabe, como poucos, a arte de dizer muito, dizendo muito pouco. Embora não dês importância a este que te importuna com tamanhos infortúnios, nem provoque os que merecem ser postos à prova, mesmo que lhes desaprove o comportamento reprovável – seja qual for teu método avaliativo para tanto – venho por meio desta carta relatar-te meu apreço por tão digníssima personalidade.
És, a meu ver, algo como um dedicado jardineiro exaustivamente capaz de podar o crescimento das inofensivas plantinhas sob teus cuidados, para que estas não te atrapalhem o caminho, mas que continuem adornando o ambiente, silentes e atentas a menor brisa que te sopra a face desgastada.
Apesar da aparência decadente e abatida, realizas teu trabalho com um ar de imenso prazer, que irrompe do exagerado apreço que tens para com tua pessoa, trazendo sempre consigo o velho sorriso amarelo no canto da boca – junto a uma teimosa saliva a escorrer com freqüência.
Não me entendas mal. Não diminuo teu esforço na árdua tarefa de educar (lecionar, ensinar, ou qualquer outro sinônimo que te convenha), embora por meios que certas vezes te entediem, beirando à sonolência. Tarefa árdua sim, visível que é no teu suor e teu odor que desagradam a alguns dos mais puritanos. Eu não... Eu creio no teu amor ao trabalho, assim como crês orgulhosamente na sinceridade que teus pupilos empenham ao te acariciar o ego e te lustrar com desdém a testa desmatada pela calvície.
Apesar de meu limitado vocabulário, a intenção foi apenas de explicar-te a estima que te tenho, querido professor. Se me delongo em elogios, culpa minha, que não me caibo nesta cadeira desconfortável durante estas horas de palavras tão reconfortantes em tua companhia. Espero com esta singela homenagem conquistar-te não o coração (que este já deve estar deveras maltratado, caso o possuas), mas alguma pouca simpatia. Não que a indiferença já não me seja mais que suficiente.
Não quero lhes falar de minha tristeza, mas o que me entristece e que não me escapa em palavras insiste em fugir por meio de sedutoras letras mal-rabiscadas.
Escrever é preciso, apesar de não explicar-te nada, meu caro. Nem sobre que merda escrevo, nem em que merda penso. Saiba de mim apenas que dias inglórios ainda hão de vir, quando serei capaz de sentir fazendo sentido.
Nada tenho a dizer que já não se saiba de mim e que esta falsa transparência traduz em sentimentos íntegros, mesmo que desonestos para com meu sagaz interlocutor, que tem de se dar por satisfeito em refletir-lhe este bon-vivant decadente e incapaz de lamuriar-se em constante auto-flagelação pública.
Escrevo porque é melhor exorcizar meus males em letras que disfarçá-los em sorrisos.
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